quarta-feira, 23 de abril de 2008

É só ler os sinais

Hoje acordei decidida: vou comprar uma calça jeans. Acho que não existe roupa mais versátil e elegante. Tarefa das mais elevadas comprar jeans. Leva-se quase uma vida inteira para descobrir o par de jeans perfeito. E foi pensando na perfeição dos jeans que queria comprar que pulei da cama e fui até a cozinha fazer café, acho que eram seis da manhã. Adoro acordar cedo: vejo pássaros bicando coquinhos, desencavando minhocas no meu jardim, beija flores e abelhas sugando as flores rosadas da trepadeira, uma beleza. E moro em São Paulo, onde o índice de poluição certos dias do ano pode chegar a níveis alarmantes. Mas estamos em Pinheiros, aquela várzea chique. No pollution, only skies. Olho pela janela, com faro meteorológico, para ver se o céu está nublado ou azulzinho, e se dá para levar minha filha no cursinho de havaianas ou se é caso de usar galochas, capa de chuva e bote de borracha para enfrentar as enchentes. Havaianas, respirei aliviada, cor de laranja, decidi, inspirada por um céu colorido. Cor de laranja? O céu parecia estar pegando fogo. Depois de uma olhada meio distraída, olhei de novo e achei que era o dia do juízo final: abri a porta da cozinha, que dá para o jardim, olhei para o céu e gente, quase chorei. Corri, chamei minha filha, pois sei que, tal como a paixão, maravilhas da natureza duram pouco. Que arco íris incrível: decretamos juntas. E não era um só, eram dois! Semiconcêntricos, pois que são semicirculares e aquelas cores todas, roxos, rosas, amarelos e laranjas afogueados... Admiti, humilde: deus existe.Derramei um café fumegante na caneca,  passei coalhada seca numa torrada e independente de geometrias ou teogonias, filosofei em alemão: a vida é linda und hoje vai ser um dia especial. É preciso saber ler os sinais. Um dia que começa com dois arco íris no seu quintal vai acabar no mínimo, num pote de ouro. Se eu ao menos imaginasse onde tudo isso ia dar. Fui fazer minha sessão de acupuntura, e como sempre, com aquelas agulhinhas matreiras espetadas em alguns chacras especiais, mergulhei naquele túnel escuro que fica dentro dos olhos e tentei focar numa luz brilhante bem no centro de tudo. Dormi. Believe it or not. Não vi arco-íris, nem espectro solar, nem estrelas: apenas dormi. O dia seguiu feliz, sem congestionamentos, sem telefonemas chatos, Madeleine Peyroux cantando no carro, vou visitar uma amiga que tem uma tartaruga centenária, grande como uma roda de caminhão. Sei lá porque, olhando o animal pré-histórico perdido no jardim, lembrei-me das sessões de calatonia que fazia com Ione, minha terapeuta querida, que já partiu há tantos anos e deve estar fazendo terapia para os anjos no paraíso.Mercado, maçãs, leite, biscoito, detergente, caixa eletrônico, almoço, espinafre, morangos e finalmente chega a hora tão esperada: vou comprar meus jeans. Dou um duro danado para convencer a dona da fábrica – que só vende no atacado – a me vender no varejo. As calças são tão legais e o preço tão bom, ela topa vender, não resisto. Felicidade é uma calça azul e desbotada, sabe como é. Saindo da loja, parece que o mundo vai desabar: do nada, começa a chover muito forte. Entro no carro, adoro dirigir debaixo de chuva, tipo Ayrton Senna. Curva para a esquerda, desvio de um ciclista à direita, e para minha alegria, a chuva é de granizo. Adoro ver as pedras de gelo branquinhas batendo no vidro do carro, e ficar imaginando como foi que a chuva congelou. A chuva dura apenas alguns instantes: o céu volta a brilhar tão depressa que quando menos espero, surge, deslumbrante, atrás dos prédios da Teodoro Sampaio um OUTRO ARCO IRIS multicolorido. Que dia, pensei. Vou para casa tomar um banho e relaxar. Ainda bem que relaxei. Mas relaxei tanto, tanto, que quando aconteceu o terremoto de mais de 5 pontos na escala Richter, eu estava de moleton branco, no sofá, vendo um filme francês e pensei: os ônibus estão caprichando hoje, chacoalham a casa toda quando passam.O chão pantanoso da várzea de Pinheiros parecia gelatina.Chega de surpresas. Minha filha me disse que sua escrivaninha também sambou para valer. Dito e feito: o dia que começou com um, dois, três arco-íris, terminou com um terremoto, e de lambuja ainda curti uma chuvinha de pedras no meio da tarde. Simples: é só ler o sinais.

3 comentários:

Ví Leardi disse...

Adorei...e eu que não sabia que vc escreve assim...
Beijos

... disse...

Olá, Paula passeando pela √i, apareci por aqui.
Fiquei curioso em saber dos papéis votivos - em comprimentos de votos, como sãos eles?
Os de seu interesse como, orientais, imagino nada sobre eles. O que pode ser?
Filosofando em alemão lembrei das " Teses" do Benjamin , a N˚ 9 , " minhas asas estão prontas para o vôo, se pudesse, eu retrocederia.
Se ficasse no tempo vivo, eu teria menos sorte" . (Gerhard Scholem- Saudação do anjo, O progresso é a tempestade no olhar do anjo do Klee. Bobagem isso de sorte.
Mas deixa isso prá la.
Estraguei meu jeans caindo tinta e não tomei café por que acabou o pó.
Vim relaxar e encostei aqui.
Descansado, volto para a oficina.
Obrigado pela atenção, apareça quando quiser.
ab.

Anônimo disse...

nossssa, você vê de blogueira de meia tigela eu sou? não sei usar o blog, acho ele estranho visualmente e o Facebook é tão mais direto, as pessoas tão lá sabe, na sala? Facebook é TV, blog é cinema. Mas, na verdade, só cinema é cinema!